Tenho uma curiosidade aguçada em descobrir textos sobre o Amor. Quase sempre que vejo um texto sobre este tema tento lê-lo. Uns são absolutamente fascinantes, outros não são mais do que “tretas” mundanas, deselegantes, “bacocas” e por essa razão sem interesse nenhum. Chamam-lhe textos de Amor, mas nem se dão ao trabalho de discutir ou apresentar a etimologia da palavra.
Na minha recente e atarefada mudança de ninho, ressaltaram-me, entre papeladas imundas, algumas obras há muito esquecidas. Não possuo uma biblioteca imponente, mas aprecio a companhia de um bom livro; mesmo que não o(s) leia até ao fim, estimo-os com delicado carinho. Tenho sempre um na minha mesinha de cabeceira, é como se fosse um “anjinho da guarda”...
Ontem, os passaritos adormeceram cedo. Estava uma noite de luar enublada, bonita mas fria. Sentei-me aconchegada no sofá. Pensei em ir estudar, mas sobre o tema “Diabetes e comportamento”?! Não me apetece! Não vejo novelas, os amigos foram tomar um café e demoraram pouco, coloquei um filme no DVD e não dava som... Mau!... que faço eu? Cama? Não tenho sono! Não vou…
Um amigo! É isso! Falta-me uma boa companhia...toca de ir buscar um livro. Saltou-me à vista “Sobre o Amor e a Morte” de Patrick Süskind.
Este autor exalta na sua obra uma fantástica reflexão sobre duas grandes forças da existência humana. Eros e Tanatos. Num ensaio de 62 páginas, que se lê num ápice, as lágrimas saltam com a mesma facilidade com que o nariz consegue reconhecer o cheiro resultante da descrição perfeita do odor execrável e podre resultante do momento do nascimento de Jean Baptiste, em pleno mercado sob uma banca de peixe. A personagem principal do seu livro “O perfume” nasce com um dom especial. É dono de um invulgar olfacto que faz dele um assassino “especial”. A obra foi adaptada cinematograficamente e, na minha perspectiva, está brilhante!
Patrick Süskind fundamenta o significado de Amor e Morte, à luz de autores memoráveis como Goethe, Wagner e Oscar Wilde.
Arrepiante, acutilante, e com um humor envolvente faz claramente a junção entre Amor e Morte, Jesus e Orfeu. Mostra, na sua obra, que o Amor e a Morte foram desafiados por estes dois homens mas de forma diferente.
A ousadia do autor fá-lo acreditar que Orfeu desafiou a morte em nome do Amor por Eurídice de forma mais intensa do que Jesus...
Morta por uma picada de serpente enquanto fugia do assédio de Ariceu, fez com que Orfeu tentasse entrar na terra do Hades.
Talvez tenha sido com o encanto dos seus cantos que Hades se deixou comover e permitiu que Orfeu recuperasse a sua amada Eurídice.
As condições foram expressamente deliberadas por Hades: Eurídice iria com Orfeu mas devia seguir o marido, à distância. Orfeu estava proibido de olhar para trás. Mas... na ânsia de rever a esposa, Orfeu infringiu a proibição e, dessa vez, perdeu Eurídice para sempre...
Este ensaio faz-nos reflectir indiscutivelmente sobre a vida e a morte e, tal como as fábulas... há sempre uma moral da história.
Tenho para mim, que talvez seja um denominador comum, em qualquer verdadeira história de amor, o cumprimento de “condições”... Caso contrário...
No entanto, julgo que faria o mesmo que Orfeu! Quando se ama verdadeiramente desafia-se tudo… penso que até a morte!
Companhia aprazível que me fez dormir como um anjo...
04.11.2009
* Docente no ISMT
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